Canetas para emagrecer
Muito além da perda de peso, um novo aliado do coração
Quando ouvimos falar nas famosas “canetas para emagrecer”, normalmente pensamos apenas na perda de peso. Mas os medicamentos mais modernos dessa categoria estão mudando também a forma como enxergamos o tratamento do risco cardiovascular.
Medicamentos que atuam sobre o GLP-1, como a semaglutida, e medicamentos que atuam simultaneamente sobre os receptores de GLP-1 e GIP, como a tirzepatida, não promovem apenas redução do peso. Eles também podem melhorar diversos fatores que estão diretamente relacionados à saúde do coração.
E esse é um ponto muito importante: tratar a obesidade é também uma forma de cuidar do coração.

O que são GLP-1 e GIP?
GLP-1 e GIP são hormônios produzidos naturalmente pelo nosso organismo e que participam do controle da glicose, da fome e do metabolismo.
Os medicamentos que imitam a ação desses hormônios ajudam a aumentar a saciedade, reduzir a ingestão alimentar e melhorar o controle metabólico.
A tirzepatida, por exemplo, atua simultaneamente nos receptores de GIP e GLP-1. Essa combinação pode produzir uma perda de peso importante e melhorar diversos parâmetros cardiometabólicos.
Mas o interesse da cardiologia por esses medicamentos vai além da balança.
Por que perder peso protege o coração?
A obesidade está associada a uma série de fatores que aumentam o risco cardiovascular: pressão alta, diabetes tipo 2, alterações do colesterol, resistência à insulina, inflamação, apneia do sono e maior sobrecarga para o coração.
Quando conseguimos reduzir o excesso de peso, frequentemente observamos melhora de vários desses fatores.
Com o tratamento adequado, pode ocorrer redução da pressão arterial, melhora do controle da glicose, diminuição da circunferência abdominal e melhora de diversos marcadores metabólicos.
Ou seja, não estamos falando apenas de perder quilos. Estamos falando de diminuir a carga de fatores que agridem o sistema cardiovascular.
E os estudos mostram redução de infarto e AVC?
Sim especialmente com alguns medicamentos da classe e em determinadas populações.
Um dos estudos mais importantes foi o SELECT, que avaliou mais de 17 mil pessoas com sobrepeso ou obesidade, doença cardiovascular estabelecida e sem diabetes.
Nesse estudo, a semaglutida reduziu em aproximadamente 20% o risco relativo de um evento cardiovascular importante, definido como morte cardiovascular, infarto não fatal ou AVC não fatal.
O evento ocorreu em 6,5% dos pacientes que receberam semaglutida, contra 8,0% daqueles que receberam placebo.
Esse resultado foi extremamente importante porque mostrou que, em uma população específica de pessoas com obesidade ou sobrepeso e doença cardiovascular estabelecida, o tratamento poderia reduzir não apenas o peso, mas também a ocorrência de eventos cardiovasculares.
E a tirzepatida, que atua em GLP-1 e GIP?
A tirzepatida trouxe uma nova perspectiva.
No estudo SURPASS-CVOT, publicado no New England Journal of Medicine em 2025, mais de 13 mil pessoas com diabetes tipo 2 e doença cardiovascular aterosclerótica foram acompanhadas e comparadas entre tirzepatida e dulaglutida.
O resultado mostrou que a tirzepatida foi não inferior à dulaglutida na prevenção do desfecho composto por morte cardiovascular, infarto ou AVC. O evento ocorreu em 12,2% dos pacientes tratados com tirzepatida e em 13,1% daqueles que receberam dulaglutida.
Isso é importante porque a dulaglutida já é um medicamento com evidência de benefício cardiovascular.
Portanto, os dados atuais reforçam que a tirzepatida apresenta um perfil cardiovascular favorável, embora seja importante não interpretar esse resultado como prova de que ela necessariamente reduz mais eventos cardiovasculares do que todos os outros medicamentos da classe.
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E existe benefício para quem tem insuficiência cardíaca?
Esse é outro campo muito interessante.
No estudo SUMMIT, pacientes com obesidade e insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada receberam tirzepatida ou placebo.
O grupo tratado com tirzepatida apresentou menor risco do desfecho combinado de morte cardiovascular ou piora da insuficiência cardíaca: 9,9% contra 15,3% no grupo placebo.
A diferença foi principalmente relacionada à redução dos episódios de piora da insuficiência cardíaca. Além disso, os pacientes tratados apresentaram melhora significativa de sintomas e qualidade de vida.
Isso é particularmente relevante porque a obesidade é um dos principais fatores associados ao desenvolvimento desse tipo de insuficiência cardíaca.
Então essas canetas “protegem o coração”?
A resposta precisa ser: podem reduzir o risco cardiovascular em determinados pacientes, mas não são uma proteção universal contra infarto.
Esse detalhe é fundamental.
Os benefícios demonstrados nos estudos dependem do medicamento utilizado, da dose, do perfil do paciente e da doença cardiovascular presente.
Não significa que uma pessoa saudável que utilize uma caneta para emagrecer estará automaticamente protegida contra infarto ou AVC.
Também não significa que esses medicamentos substituam os tratamentos tradicionais da cardiologia.
Se um paciente tem colesterol elevado, por exemplo, pode continuar precisando de uma estatina. Se tem hipertensão, pode precisar de medicamentos para controlar a pressão. Se fuma, parar de fumar continua sendo fundamental.
A caneta não substitui a prevenção cardiovascular. Ela pode fazer parte dela.
O coração não enxerga apenas o peso na balança
Esse talvez seja o conceito mais importante.
Durante muitos anos, o tratamento da obesidade foi visto principalmente como uma questão estética. Hoje sabemos que a obesidade é uma doença crônica que pode afetar praticamente todo o organismo e o coração está entre os principais órgãos afetados.
Por isso, quando conseguimos tratar a obesidade de forma eficaz, podemos melhorar não apenas o peso, mas também pressão arterial, metabolismo da glicose, resistência à insulina, capacidade física e diversos outros fatores relacionados ao risco cardiovascular.
E os estudos mais recentes mostram que, para determinados grupos de pacientes, os benefícios podem chegar ao ponto de reduzir eventos cardiovasculares clínicos.
GLP-1 e GIP representam uma mudança de paradigma
Estamos entrando em uma nova era no tratamento da obesidade e das doenças cardiometabólicas.
Os medicamentos que atuam no GLP-1 e, no caso da tirzepatida, simultaneamente no GLP-1 e GIP, mostram que tratar o excesso de peso pode ter consequências muito maiores do que simplesmente reduzir o número na balança.
Em cardiologia, não queremos apenas que o paciente viva com menos peso. Queremos que ele viva mais e melhor, com menor risco de infarto, AVC, insuficiência cardíaca e outras complicações cardiovasculares.
As evidências disponíveis até o momento são muito promissoras. Ao mesmo tempo, é importante lembrar que esses medicamentos devem ser utilizados com indicação e acompanhamento médico, porque possuem contraindicações, efeitos adversos e precisam ser individualizados para cada paciente.
Cuidar do peso é cuidar do metabolismo. Cuidar do metabolismo é cuidar do coração. E, para muitos pacientes, essa pode ser uma das estratégias mais importantes de prevenção cardiovascular da medicina moderna.
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